Farinha do Mesmo Saco

Carlos Zarur . 31 de Outubro, 2005

*artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

A história gosta de se repetir. Nos Estados Unidos, ela está voltando com força quando comparamos semelhanças dos governos ultra conservadores de Bush e de Nixon, apesar dos trinta e poucos anos que os separa. Os dois presidentes, beligerantes e republicanos, foram reeleitos no bojo de princípios direitistas, no timão de guerras intervencionistas. Nixon no comando da guerra do Vietnã e Bush da invasão do Iraque.


É bem verdade que devemos guardar as diferenças do tempo em que os fatos se desenrolam e também as diferenças óbvias dos seus coadjuvantes. Richard Nixon foi reeleito para um segundo mandato em 1972 derrotando por maioria esmagadora o candidato democrata, McGovern. Teve 61% dos votos e 49 dos cinqüenta estados. O escândalo de Watergate, porém, já assombrava e era inescrupulosamente encoberto pelo governo. Logo, Nixon se viu engendrado na trama que havia criado, tendo renunciado ao mandado de Presidente dos Estados Unidos, o emprego mais poderoso do mundo, dois anos depois de sua vitória estrondosa, escapando assim o impeachment inevitável.


Apesar de ter obtido avanços na política internacional, como a assinatura, em Paris, do acordo que levou ao fim a Guerra do Vietnã em 1973, o Governo Nixon era ineficiente internamente e a maneira como lidou com Watergate foi um desastre. Nixon demitiu, em outubro de 73, de maneira brutal e arbitrária o promotor independente Archibald Cox. O promotor farejava as fitas gravadas na Casa Branca que provaram, mais tarde, o envolvimento direto do Presidente no encobrimento da apuração dos fatos.


O Governo Nixon tentou de maneira vingativa e violenta calar a imprensa tendo, entre várias ameaças, ameaçado de prisão a poderosa dona do jornal Washington Post, Katharine Grahan. Katharine, em seu livro de memórias, Uma História Pessoal, termina o capítulo sobre Watergate e os duros tempos Nixon com o seguinte e atual parágrafo: “A credibilidade da imprensa resistiu ao teste do tempo contra a credibilidade daqueles que passaram tanto tempo negando hipocritamente suas más ações e nos atacando ao atacar nossa atuação e nossos motivos...”.


Tantos anos depois, muita água passou sob a ponte da história. Os Estados Unidos vivem o Governo do Presidente George W. Bush, reeleito para um segundo mandado depois de ter derrotado o candidato democrata, John Kerry. Como na era Nixon, no entanto, as comemorações pela vitória começam a cair por terra, a política interna de Bush é um desastre e a guerra do Iraque perde apoio com o início de manifestações contrárias e as mais de duas mil morte de jovens soldados americanos que pesam sobre os ombros do Presidente.


Para as coisas ficarem mais semelhantes ainda só faltava um escândalo que levasse o governo a tentar abafá-lo, como Nixon fez, sem sucesso, no caso Watergate. Surge o Plamegate. Um enredo rocambolesco também cheio de desastrosas ações perpetradas por membros do governo, íntimos do Presidente.


O novo escândalo, fartamente noticiado, surgiu quando, por vingança, assessores do Presidente Bush revelaram à imprensa a identidade da agente da CIA, Valerie Plame, porque o seu marido, Embaixador Josph Wilson IV, questionou informações da inteligência americana sobre o suposto programa nuclear do Iraque, usadas pelo governo para justificar a guerra. A revelação da identidade de um agente pode ser considerada um grave crime nos EUA.

As semelhanças entre Nixon e Bush continuam diante dos movimentos do governo tentando encobrir os fatos. Descobriu-se que o chefe de Gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby, um dos que vazou a história, havia ouvido o nome da agente da CIA, pela primeira vez, da boca de Cheney e não de jornalistas como afirmou em testemunho perante o promotor independente Patrick Fitzgerald, o que pode ser considerado como obstrução ao trabalho da justiça e lança graves suspeitas sobre o vice-presidente, um dos homens de ouro de Bush.

Esta novela da vida real envolve ainda a jornalista Judith Miller, do New York Times, que foi presa por cerca de quatro meses por não ter revelado, perante um juiz, o nome de sua fonte. Voltamos então ao Governo Nixon e a discrição feita por Katharine Graham, do caso Watergate e a importância do segredo de fonte. Ela diz em suas memórias: “Estarrecedor como foi Watergate para o país e o governo, salientou o papel crucial de uma imprensa livre, competente e ativa. Vimos quanto poder o governo tem para revelar o que quer quando quer, para dar ao povo somente a versão autorizada dos acontecimentos. Reaprendemos as lições sobre a importância do direito de um jornal manter suas fontes em sigilo.” Esta constatação de Katharine Grahan, feita há mais de 30 anos, e os fatos que se repetem na história, devem ser estudados mais detidamente pelos governos em geral, pois o poder pode afastar líderes da realidade.


Os fatos vão se desenrolando rapidamente e o Presidente George Bush vê sua imagem se deteriorando. Naufragando, como Nixon, no enredo desastrado de um governo ineficiente e reacionário.

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