Sem Açúcar e sem Afeto

Carlos Zarur . 09 de Junho, 2004

*artigo publicado no site abcpolitico.com.br

A definição mais clara sobre as últimas medidas argentinas, criando barreiras comerciais para a importação de produtos brasileiros foi dita pelo economista Eduardo Gianetti: “O Brasil é muito grande para o Mercosul”.

Chegou a hora de avaliarmos com cuidado até que ponto é bom para o Brasil o alinhamento, da maneira cega que se dá atualmente, com o Mercosul e em especial com a Argentina.

Não podemos, e não devemos, cair na conversa de que não se pode permitir “assimetrias comerciais com o Brasil”, como afirmou o Presidente Nestor Kirchner. Assimetrias devem haver sim, diante da imensa diferença métrica existente entre os dois países. Temos um território muito maior, nossa população é quatro vezes a da Argentina. Todos os nossos números são infinitamente maiores do que os da Argentina, inclusive os nossos problemas.

Não podemos cair nessa conversa tola, feita para boi dormir, do Chanceler Bielsa clamando por um processo com “mesas niveladas” e ameaçando com mais restrições que poderão alcançar: frangos, máquinas agrícolas e calçados. Estão atirando para valer, contando com a nossa costumeira calma de gigante bonachão.

A hora é de negociar com força, é de pagarmos para ver, retaliando à altura como qualquer país grande faz com o menor. Não é assim a nossa relação comercial com os Estados Unidos? É toma lá da cá, sem paternalismos ou favores envergonhados por serem mais desenvolvidos e mais poderosos. O Brasil deve perder a timidez, o assombro por ser grande.

Não podemos nos dar ao luxo, diante da difícil situação social interna na qual vivemos, de abrirmos mão, mesmo em nome do belo sonho de uma América do Sul mais unida, das nossas responsabilidades com o nosso povo necessitado, com a pobreza, com os desempregados. Será que o senhor Néstor Kirchner pensará em uma simetria entre o seu país e o Brasil, também no caso da miséria?

Lembro da música “Com Açúcar e com Afeto”, de Chico Buarque. Nós estamos apanhando já há muito tempo e no final preparamos para eles o prato predileto. Durante todas as crises vividas pelo país vizinho, o Brasil foi sempre o parceiro mais confiável. Foi assim durante a delirante guerra das Malvinas; foi assim durante a derrocada econômica dos últimos anos. Nós estamos sempre ali: o grande amigo! O retorno, porém, sempre foi assimétrico. A Argentina combateu a candidatura do Brasil para o Conselho de Segurança da ONU. Procuraram uma relação de parceria total com os Estados Unidos, durante o governo Menen, em detrimento do relacionamento com o Brasil. Em resumo: sempre que saem do buraco esquecem do discurso de uma América do Sul unida, buscam seus próprios interesse a qualquer custo. Esquecem de quem jogou a corda.

Retaliações econômicas brasileiras às medidas unilaterais da Argentina de restrição às importações de nossos produtos, seriam desastrosas para os nossos vizinhos do sul. Pois somos os principais importadores de produtos argentinos e temos um mercado bem mais importante para eles do que o deles para nós.

Mas a discussão não deve se radicalizar. Devemos engolir em seco, enterrar os desaforos mais uma vez e procurarmos, de maneira madura, negociar até à exaustão, sem no entanto, abrirmos mão dos interesses nacionais.

Quanto a tal da assimetria que Kirchner rosnou que não vai permitir, existe até mesmo no futebol. Segundo o “Ranking da Fifa”, divulgado há alguns dias, a seleção brasileira lidera com galhardia enquanto a da Argentina sua para manter o décimo primeiro lugar.

© Copyright 2005-2022, Carlos Zarur. Direitos autorais reservados.