Fome e Assistencialismo

Carlos Zarur . 14 de Fevereiro, 2005

*artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

Nenhuma política de combate à fome, por melhores intenções que seus executores tenham, terá sucesso se não houver um rígido planejamento. A maneira atabalhoada de distribuir recursos, no afã de resolver o problema, põe a perder a grande chance de banir de vez a miséria de nosso país.

Todos os esforços devem ser dirigidos, estritamente, para quem precisa de recursos para sanar fome premente. Com isso, poderia o Estado diminuir bastante o montante previsto para o combate assistencialista a essa séria epidemia . Cifras que poderiam ser dirigidas, por exemplo: para a educação, saneamento básico, projetos de fomentação do emprego, políticas de desenvolvimento sustentado, programas de medicina da família e etc. Vacinas que, bem aplicadas, podem economizar o que é gasto depois em tratamentos de emergência.

Recentes reportagens veiculadas pela mídia eletrônica, denunciaram e mostraram desvios na distribuição dos recursos que deveriam estar ajudando a matar a fome. Há de tudo. Gente com piscina em casa ostentando orgulhosamente o cartão que daria a crianças famintas, do mesmo município, o direito de comer. Da maneira que é feito, é impossível o controle de toda essa confusão: bolsa isso, cartão aquilo, do governo federal, do estadual da prefeitura. Doações dali e de acolá.

Lembro da obra do grande guru do combate à fome no mundo, o brasileiro Josué de Castro. Em Geografia da Fome, o médico, geógrafo, escritor e humanista, não prega o assistencialismo, que se presta ao desvio fácil e ao uso político. Diz: “É evidente que não bastaria dispor de alimentos em quantidade suficiente e suficientemente diversificados para cobrir as necessidades alimentares da população mundial. O problema da fome não é apenas um problema de produção insuficiente de alimentos. É preciso que a massa desta população disponha de poder de compra para adquirir estes alimentos.”

Quanto mais lemos Geografia da Fome, livro que foi lançado em 1946, constatamos sua triste atualidade. O problema da fome no mundo e em nosso país, agravou-se diante de diversos fatores, entre eles: o aumento desordenado das populações, políticas econômicas altamente conservadoras, acentuado nível de corrupção e, sobretudo, o enriquecimento dos países desenvolvidos em detrimento dos demais.

Esse abismo entre o mundo rico e o mundo pobre aumenta cada vez mais diante de políticas protecionistas e do desenho exploratório colonial incorporado agora às modernas economias de mercado. A insensibilidade acentuada, principalmente dos governos europeus e norte-americano, não abre caminho para uma melhor distribuição da riqueza. Em 1946 Josué de Castro já se referia à insensibilidade dos “países da abundância”: “A noção que se tem, correntemente, do que seja a fome é, assim, uma noção bem incompleta. E este desconhecimento, por parte das elites européias, da realidade social da fome no mundo e dos perigos que este fenômeno representa para a sua estabilidade social, constitui uma grave lacuna tanto para a análise dos acontecimentos políticos da atualidade, que se produzem em diversas regiões da terra, como no que se refere à atitude que os países da abundância deveriam ter face aos países subdesenvolvidos, permanentemente perseguidos pela penúria e pela miséria alimentar.”

A inquietação de Josué de Castro continua viva e deve preocupar a todos nós. A desigualdade de renda no Brasil bate recordes e as diferenças estão cada vez mais aguçadas diante de nossos olhos. Esse sistema colonial do atraso, instalado em nossa sociedade, só será quebrado com a instauração de políticas fortes e bem planejadas que privilegiem o desenvolvimento e a educação, pavimentando caminhos que possam melhorar a vida daqueles que nada têm.

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