A Democracia foi para o Cárcere

Carlos Zarur . 18 de Julho, 2005




*artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

A prisão da jornalista norte-americana Judith Miller, do The New York Times, nos leva de volta ao assunto que abordei em artigo publicado há alguns meses pelo Correio Braziliense, intitulado Tempos Mentirosos. Nesse artigo comentei as mentiras que foram perpetradas pelos Estados Unidos e pela Inglaterra para justificar a invasão do Iraque. Comentávamos, então, que seria necessária uma análise mais detida sobre a participação da mídia na armação que foi montada para viabilizar a invasão. A mídia, em particular a eletrônica, com honrosas exceções, ajudou a possibilitar a crença popular, nos países invasores, de que o Iraque era, de fato, um perigo real.

Judith Miller é mais uma vítima da decadência da democracia norte-americana, acentuada depois da posse do presidente Bush. Foi presa por não revelar uma fonte, direito sagrado que todo jornalista tem em qualquer republiqueta mais ou menos livre.

A história é rocambolesca. Judith foi presa por desacato à Justiça ao se recusar a revelar suas fontes de informações num inquérito federal instalado para determinar se altos funcionários da Casa Branca cometeram crime vazando ao colunista Robert Novak, amigo de Bush, o nome do agente da CIA Valerie Plame, em julho de 2003. O mais incrível é que Judith, que não publicou a reportagem com o nome da agente, foi presa. O conservador Novak, que sempre apoiou a invasão do Iraque e que, de fato, revelou o nome da agente secreta, continua solto.

Ao que parece, tudo foi uma desforra da Casa Branca contra o marido da agente Plame, pois, dias antes do artigo de Novak ser publicado, o marido de Plame, o ex-embaixador Joseph Wilson impugnara como falsos alguns dos argumentos usados pelo presidente George W. Bush para justificar a invasão do Iraque, em artigo publicado no The New York Times.

Em um exame mais profundo sobre o assunto, no entanto, aflora a teoria desenvolvida por alguns importantes órgãos da imprensa norte-americana na direção de que o vazamento do nome da agente foi uma grosseira tentativa do governo Bush para intimidar a imprensa no momento em que seus problemas aumentam nos cenários doméstico e do Iraque. Essa teoria ganha força quando se constata que o principal suspeito do vazamento da informação é um importante assessor do presidente, talvez o mais importante, Karl Rove, e o jornalista que revelou tudo é, abertamente, simpatizante do governo.

Isso parece um complicado enredo de novela, mas não é. É cruelmente real, pois há uma jornalista que está presa, nos Estados Unidos, por não revelar sua fonte, enredada pelo jogo sujo da guerra do Iraque. É, no mínimo, um atentado à liberdade de imprensa no país que vive divulgando o seu pseudo-exemplo de exportador da democracia.

O que mais nos surpreende é a constatação de que a guerra do Iraque, além de ter trazido mais insegurança ao mundo, não levou a tão almejada liberdade àquele sofrido país, mas está acelerando a decadência da democracia na principal potência invasora.

artigo publicado no jornal correio brasiliense

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