Perto Demais

Carlos Zarur . 27 de Janeiro, 2005



Bolívar deve estar dando cambalhotas no túmulo em virtude da confusão que os dois países, meninas dos seus olhos, Venezuela e Colômbia, estão causando quase partindo para uma guerrinha particular. Deve estar querendo saber mais sobre o cara que o ama profundamente e vive pregando a integração, mas que agora protagoniza essa pantomima latino-americana, um certo Hugo Chávez.

Tudo começou quando Chávez acusou Bogotá de seqüestrar, em território venezuelano, o guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Rodrigo Granda, versão negada pelas autoridades colombianas. Chávez ameaçou congelar as relações com o país vizinho caso o governo Álvaro Uribe não reconheça o “seqüestro” e se desculpe pela ação. Granda, uma espécie de Chanceler da guerrilha colombiana, teria, segundo a versão da Venezuela, sofrido seqüestro, em plena capital Caracas, sendo levado, secretamente, para as prisões de seu país.

A versão verdadeira é bem diferente. Granda foi preso por militares Venezuelanos e entregue, na fronteira, para policiais colombianos. Os militares da Venezuela teriam recebido a recompensa de 350 mil dólares pelo favorzinho. Uribe, a rigor, não cometeu crime internacional, pois os envolvidos no “seqüestro” não são colombianos. Quem tem que explicar a indisciplina de seus soldados e porque mantinha no país, há dois anos, com passaporte e regalias, um guerrilheiro procurado, é o Presidente Hugo Chávez.

Esse imbróglio começa a se complicar, ainda mais, por causa dos Estados Unidos. Bush e seus falcões já se manifestaram favoravelmente ao Presidente Uribe, aliado dos norte-americanos no combate à guerrilha. A Venezuela de Chávez ainda não faz parte do “eixo do mal”, mas está quase chegando lá. Já sofreu um golpe que tentou depô-lo com, segundo tudo indica, participação dos Estados Unidos. Agora arruma o pretexto que Bush mais queria e ainda acusa “o governo imperialista dos EUA” de sair a defender “de maneira apressada” a Colômbia.

Neste ponto da história entra o Brasil. Nosso Governo agiu rápido, sabendo que uma marola forte junto às nossas fronteiras do norte poderia trazer graves problemas. O Presidente Lula encontrou Álvaro Uribe e ofereceu a mediação brasileira para o conflito. Logo depois, o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, voou para Caracas, em missão oficial, e manteve longo encontro com Chávez na tentativa de convencê-lo a retomar o diálogo com o país vizinho. Segundo Garcia a conversa criou “boas perspectivas de evolução”. O governo brasileiro, como intermediador, propõe que os dois presidentes encerrem o caso com um comunicado conjunto. Daqueles que os diplomatas adoram fazer: dizem tudo sem dizer nada.

É bom mesmo que o Brasil haja como intermediador e que o Itamaraty negocie com rapidez e competência antes que o gladiador Bush venha se distrair, com seus brinquedinhos de guerra, nas nossas barbas, obrigando nossa diplomacia a reaprender o idioma inglês.

Toda essa receita está bem ao gosto de Washington , pois tem como ingredientes: guerrilha na selva, gente importante que não gosta dos Estados Unidos e muito petróleo por perto.

artigo publicado no site abcpolítiko


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