Teatro de Operações

Carlos Zarur . 01 de Junho, 2004

Estamos em guerra. Esta constatação fica clara quando vemos cruzando o céu do Rio de Janeiro, o branco veloz das balas que matam mais inocentes do que os que, de fato, guerreiam. Estamos em guerra e não conseguimos aceitar que ela existe tão perto de nós pois, a tendência é acharmos que guerra é só o que vemos no noticiário noturno das televisões bem longe do nosso dia a dia.

Há, na verdade, uma forte onda de insatisfação social subindo aos poucos e nos sufocando enquanto o Estado, pesado e inerte, assiste tudo impotente. Tenta, no máximo, em desespero, cobrir com uma capa de desinformação o que ocorre na frente dos nossos olhos e nós gostamos que isso seja feito pois, tira, de nossas costas, a difícil responsabilidade cidadã de reagir.

As principais televisões cobrem o que ocorre mas, logo depois, mostram no mundo cor de rosa das novelas senas de um Rio que há muito não existe. Da época boa em que Tom e Vinícios compunham pelos bares de Ipanema e conseguiam ver, da janela, o Cristo Redentor abençoando a cidade. Fora da telinha, no entanto, as coisas não andam nada bem: corrupção, miséria, tráfego e consumo de drogas, formam os ingredientes de uma receita altamente explosiva.

A guerra está tão viva e tão perto que pode atingir a qualquer um de nós. Vemos, todos os dias as vítimas serem enterradas e, inconscientemente, afastamos as imagens para longe da nossa vida e dos nossos entes queridos. Como um raio, pensamos rapidamente : aquele menino, que está sendo enterrado na imagem do vídeo não é artista de um filme desagradável é real e poderia ser meu filho. A mulher assassinada, brutalmente, na saída do Túnel, perto do cenário da batalha, poderia ser a minha mulher.

Nesse momento rápido de reflexão, antes que nossa total impotência afaste o pensamento desagradável, procuramos, desesperadamente, uma resposta para a pergunta que ninguém sabe responder. O que fazer para corrigir as coisas e colocar a vida de volta nos trilhos? E então não conseguimos a resposta e esquecemos o que aconteceu, até que aconteça outra vez, cada vez mais perto.

Há, no entanto, uma tênue luz no fundo do túnel. Sabemos que o campo de batalha é mantido por uma minoria que, apesar de crescer a cada dia, ainda perde da grande maioria silenciosa que trabalha honestamente e se preocupa com as contas que terá que pagar no final do mês. Lá na Rocinha ou no Vidigal, onde tantos perderam a vida violentamente, a esmagadora maioria de moradores é de gente simples e boa reféns há bastante tempo, como nós, da classe média, estamos ficando agora, dessa guerra.

As últimas cenas da batalha da Rocinha correram o mundo rivalizando com imagens da guerra do Iraque: explosões, incêndios, tiros e morte. Pudemos ver, no Iraque, carros de combate do exército americano em chamas misturando-se às imagens de pessoas tentando se esconder dos tiros na Rocinha.

Estamos assistindo a tudo das nossas poltronas, enquanto jovens, cada dia mais novos, verdadeiras crianças se alistam no tráfego para poder, nos seus sonhos infantis, melhorar de vida, presentear a mãe com uma casa ou se transformarem em heróis . Sonhos que povoam as noites de qualquer adolescente.

Não vemos por parte das nossas elites qualquer movimento real para combater a guerra. Preferem viver distantes desses problemas do cotidiano. Devem avaliar, no entanto, do alto de seu pragmatismo, que essa guerra poderá prejudicá-las economicamente e também fisicamente pois seu barulho começa a ser ouvido no conforto dos palácios.

Só nos resta juntar essas constatações a outras que vão sendo feitas e esperarmos uma real reação à guerra que nos atormenta e já começa a morder nossos calcanhares. Seu teatro de operações não está localizado em nenhum lugar longínquo do mundo mas aqui no Brasil mesmo, na nossa cidade símbolo, o Rio de Janeiro e caminha célere para a nossa querida Brasília: “a capital de todos os brasileiros”.

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