Guarda Baixa

Carlos Zarur . 20 de Agosto, 2005

* artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

A assinatura, no início deste mês, pelo Presidente George W. Bush, do Acordo de Livre Comércio com a América Central e a República Dominicana, o Cafta, reveste-se da maior importância política e econômica. Coroa um agressivo movimento comercial norte-americano que vinha sendo feito através de acordos bilaterais, e que poderá deixar o Brasil em xeque, no que diz respeito às negociações da Alca, Área de Livre Comércio das Américas.

Com o Cafta e o Nafta, que engloba além dos Estados Unidos, o México e o Canadá, fica faltando apenas parte da América do Sul, para que a Alca se concretize definitivamente. O Chile já tem acordos unilaterais de livre comércio, em diversas áreas, firmados com os norte-americanos.

As autoridades estadunidenses vêm comendo o mingau pelas beiradas, com a clara estratégia de ilhar o Brasil forçando uma negociação desvantajosa. Nossa posição fica mais frágil ainda se levarmos em conta que os Estados Unidos são o principal parceiro comercial brasileiro e que o momento pelo qual passa o Mercosul não anda nada fácil.

Voltamos ao Cafta para compreendermos como é que vai funcionar esse novo tratado de livre comércio. Podemos resumir que confirma e amplia os benefícios tarifários que os países centro-americanos recebem, unilateralmente, dos Estados Unidos além de, obviamente, conceder contrapartidas. Algumas tarifas, como no caso de vários produtos industriais norte-americanos, são reduzidas a zero.

Há ainda áreas importantes encapadas pelo tratado, como: produtos agrícolas, açúcar, têxteis, serviços, além de outros. No caso do açúcar, por exemplo, no primeiro ano, o Cafta amplia a cota para a América Central e a República Dominicana a 1,2% da produção açucareira americana total, mas chegará a 1,7% em 15 anos. Uma gota para o gordo mercado dos Estados Unidos, mas muita coisa para os exportadores centro-americanos.

O quadro de questões fica cada vez mais complicado se levarmos em conta que a política externa brasileira não tem surtido bons efeitos em nossos parceiros da América Latina. Ao contrário, tem irritado a Argentina e outros países de menor peso político, como o Uruguai e o Paraguai. Esse caminhar tortuoso da nossa diplomacia nos levou a perder todas as eleições que concorremos para presidir entidades internacionais. A derrota mais estrepitosa virá, porém, quando, como tudo indica, não virmos concretizadas nossas pretensões de ocuparmos uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas. As possibilidades diminuíram muito, recentemente, diante das decisões da União Africana e da China de não apoiarem a proposta do G4 de inclusão de dez novos membros, sendo seis deles permanentes, entre eles o Brasil.

As pedras se embaralham mais ainda neste tabuleiro, se levarmos em conta a agressiva política do Coronel Chavez, na Venezuela, que ancorado em fartos petrodólares, desenvolve uma política antiamericana e latino-americanista de forte liderança, apesar de solitária. O corredor se estreita e logo teremos que fazer uma opção sobre que rumo tomar.

A crise política interna que paralisa o governo brasileiro prejudica também nosso peso de negociação. Com rara percepção dessa posição de vantagem, Washington enviou a Brasília, no início deste mês, o poderoso Secretário do Tesouro, John Snow, para manifestar a confiança de seu governo na nossa economia e sondar a possibilidade de reabertura das negociações sobre a Alca.

Não devemos nos esquecer que já praticamos uma política econômica liberal, ortodoxa e altamente dependente dos Estados Unidos. Tudo indica que, em virtude dos fatos atuais, o caminho que seremos forçados a trilhar será o da busca de um acordo, no âmbito da Alca, que, mal ou bem, devolva-nos uma certa liderança política, pelo menos na América do Sul, e que não sirva só ao estímulo imperialista visando mais aporte de riquezas aos países do norte.

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