O Tremor Continental

Carlos Zarur . 20 de Junho, 2005

*artigo publicado no Jornal do Brasil.

No caso da crise da Bolívia, se fôssemos os Estados Unidos, já estaríamos com nossos fuzileiros navais garantindo o fornecimento de gás para o país.

Seguiríamos a cartilha de Condoleeza Rice, Secretária de Estado norte-americana, que em seu famoso artigo “Power Matters” (O Poder Conta), escrito há cerca de cinco anos, prega que nas relações internacionais o exercício do poder, para países que o têm, é legitimo mesmo quando motivado estritamente pelo interesse próprio.

Ainda bem que não agimos assim. Temos em nossa história uma vasta tradição diplomática, mantida orgulhosamente pelo Itamaraty, onde o diálogo e a paciência norteiam nossos passos. As negociações para a demarcação de nossas fronteiras são um belo exemplo dos primeiros passos dessa prática.

A respeito do gás boliviano não houve, como alguns insistem em afirmar, erro do Brasil ao investir nos volumosos gasodutos do país vizinho. Aplicamos nada mais do que a boa política de união continental que não devemos e não podemos largar de lado em virtude da primeira crise que aparece. Economizamos, também, para uso futuro, nossas reservas estratégicas de gás.

A América do Sul está vivendo uma nova e profunda transformação, reflexo, entre outros motivos, do final das ditaduras lá pelos anos oitenta e das democracias que vieram então a florescer, mas não conseguiram responder aos principais anseios das populações mais carentes do continente.

Excetuando-se talvez o Chile, podemos generalizar que as práticas econômicas liberais, acentuadas com as jovens democracias, foram cruéis em todos os países sul-americanos. A modernização econômica e suas táticas amarradas ao livre mercado não conseguiram levar bem estar à grande maioria dos povos da região. Ao contrário, aumentaram a miséria e a distância entre ricos e pobres.

Os atuais acontecimentos que sacodem a América do Sul e que trazem instabilidades a todo o seu território, devem aumentar cada vez mais, guardando as características inerentes a cada país. Todos em crise, contidas ou não.

Há, ainda, sinais preocupantes vindos dos Estados Unidos e da Europa, já que somos profundamente dependentes desses dois continentes. Suas economias também balançam, apesar de em outras esferas. Na Europa velhos nacionalismos vêm crescendo e a Comunidade foi duramente atingida depois do não à nova constituição. A locomotiva norte-americana está perto de descarrilar, debilitada pelos crescentes custos de uma guerra insana e do sustento de uma ocupação que ninguém sabe quando vai acabar.

A revolta popular na Bolívia afeta o Brasil de maneira importante. Poderá ser positiva, no entanto, se servir para abrir nossos olhos no sentido de que alguma coisa está acontecendo e que devemos mudar nossas políticas para tentar melhorar a situação social de nossos povos.

Caso as democracias sul americanas não consigam responder, com rapidez, aos anseios das diversas populações, vamos chegar ao ponto, bem possível, de suas dissoluções e o que virá depois não será nada bom.

Cabe ao Brasil, com cautela e sem posições hegemônicas, tomar a iniciativa, honrando sua tradição diplomática, de iniciar a procura de uma madura posição de consenso político/econômico, entre os diversos países, que leve às transformações continentais necessárias, com os menores sacrifícios possíveis.

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