Tempos Mentirosos

Carlos Zarur . 16 de Agosto, 2004

*publicado no jornal Correio Braziliense.

O que diria Churchill se estivesse acompanhando as trapalhadas do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, depois da invasão do Iraque. Acho que tomaria um bom gole de conhaque, sorveria uma boa tragada do seu charuto e então, ele que sempre gostou de uma guerrinha, perguntaria: - que guerra é essa?

Faria como qualquer um de nós, aqui de longe, que também não conseguimos entender como é que líderes mundiais, os mais poderosos, podem ser tão irresponsáveis a ponto de invadir um país, enganando o mundo e contrariando a ONU. Estava na cara, desde o começo, que era tudo mentirada da grossa aquela conversa de que o Iraque poderia detonar a Terceira Grande Guerra Mundial. Conversa para boi dormir e para americano acreditar vendo TV e comendo pipoca.

Só que essas inverdades mataram muita gente: mulheres, crianças, velhos. Pessoas que nada tinham a ver com a voracidade de Bush e de seu capataz, o sempre risonho Tony Blair. Mataram, também, jovens americanos e ingleses, instrumentos da insanidade de seus líderes. O mais cruel, porém, é que os pais desses jovens provavelmente votaram nesses que são os assassinos de seus filhos, e o pior de tudo, poderão votar de novo.

O maior cinismo vem das apurações dos fatos que põem a culpa de tudo nos serviços de informação livrando, no entanto, os maiores implicados de qualquer responsabilidade. Nos Estados Unidos, o Congresso faz cena esbravejando um bocado mas preservando o grande líder da catástrofe. O mais incrível é ver a cegueira do povo norte-americano que, apesar do declínio nos índices, continua apoiando Bush e lhe dando, segundo as pesquisas, um empate técnico com o seu opositor, o candidato democrata John Kerry.

Na Inglaterra, a coisa foi pior ainda. O próprio Blair nomeou um velho funcionário público subserviente, Lorde Butler, para investigar, com limites, as causas que levaram o primeiro-ministro a mentir descaradamente para o parlamento – que obviamente queria acreditar em todas as baboseiras que viabilizassem a invasão. Lorde Butler foi autorizado a analisar os dados colhidos pelos serviços de inteligência e avaliar o uso deles pelo governo. Seu mandato, no entanto, não permitia nenhuma investigação sobre a atuação política do governo e os motivos da guerra. A grande piada foi o resultado do trabalho de Butler. Concluiu que o primeiro-ministro não agiu de má-fé e que as falhas encontradas eram de responsabilidade coletiva e “não imputáveis a uma pessoa concreta”.

Isso é que é malabarismo explicativo. O relatório de Lorde Butler assinala que houve erros sérios, que quase todas as informações usadas por Blair para apoiar a invasão eram inverídicas inclusive a mais importante de que havia armas químicas prontas para serem usadas pelo Iraque e talvez até nucleares. Um bocado de gente concreta morreu por causa das mentiras de Blair, mas não há uma pessoa tangível responsável. Os advogados de defesa dos comandantes de Hitler, no julgamento de Nurembergue, poderiam ter usado essa pérola “não imputáveis a uma pessoa concreta”, para libertarem seus clientes, os carrascos da época.

A invasão do Iraque fracassa até nas suas verdadeiras intenções. Em primeiro lugar: o controle do petróleo no mundo através da conquista de um dos mais expressivos produtores. A produção está parada, os prejuízos são enormes e quando tudo se acalmar, ninguém sabe quando, o controle dos poços ficará, como já era, nas mãos das mesmas empresas que ditam o mercado há muito tempo. Em segundo lugar: a manutenção de um país satélite que segure o Iran. Enquanto Sadan desempenhava esse papel, estava tudo bem. Recebia armas dos Estados Unidos e ninguém ligava para as suas atrocidades. Agora, os Aiatolás estão lá dentro do Iraque e, mais cedo ou mais tarde, vão tomar o poder.

Com mais tempo, será preciso analisar também a participação forte da mídia nesta grande armação e a censura perpetrada por Estados Unidos e Inglaterra, que ajudou a possibilitar a crença popular, nestes países, de que o Iraque era um perigo real. Será necessária uma análise profunda do que muda nessas duas democracias diante dos diversos atos de exceção que adotaram e ainda estão adotando.

Resta, porém, uma esperança diante de toda essa insensatez: a de que os eleitores norte-americanos e ingleses, em consonância com a opinião pública mundial, acordem a tempo de votarem pelo fim de tanta mentira. Seria uma maneira, apesar de tardia, de estancar a ferida.

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