Uma Águia Contra o Falcão

Carlos Zarur . 22 de Março, 2004

*artigo publicado no jornal Correio Braziliense.

A nobreza nortista volta a concorrer à presidência dos Estados Unidos. O senador John Forbes Kerry, será o adversário de George Bush nas eleições de novembro visando o cargo mais importante do mundo.

Puro sangue azul, senador por Massachusetts, herdeiro político de uma dinastia que vem desde o primeiro governador do Estado. Formado por Yale, uma das mais sofisticadas universidades dos Estados Unidos, e com o padrinho Edward Kennedy ao seu lado, Kerry afia as garras para tentar ganhar as eleições.

Rico, sessenta anos, herói do Vietnam, quase dois metros de altura. Kerry impressiona com a sua presença, vendendo magnetismo. É completamente diferente do último presidente democrata, Bill Clinton, que, com seu charme próprio, não tinha os requisitos dos clãs do norte. Vinha do pequeno estado de Arkansas, famoso por seus caipiras. Mais diferente ainda Kerry é do seu rival Republicano, George Bush. Um sulista turrão e conservador que cospe no chão e acha que o mundo está na América do Norte e não o contrário. John Kerry tem idéias avançadas: é a favor do aborto, defende o meio-ambiente e a ampliação do serviço público de saúde.

Esse sofisticado americano reside em Boston e é casado pela segunda vez com a riquíssima viúva Teresa Heinz, herdeira do senador John Heinz, e, nada mais nada menos, dona da marca Ketchup. Essa importante base financeira fez com que o senador abrisse mão do financiamento público que teria direito a sua campanha.

Sua ligação estreita com os Kennedy e a particular admiração pelo ex-presidente John Fitzgerald Kennedy, JFK, fez com que usasse durante sua vida política as mesmas iniciais referentes a John Forbes Kerry.

O poderoso padrinho Edward Kennedy, não pôde se candidatar à presidência, como fizeram dois de seus irmãos, depois do envolvimento no acidente de carro que matou sua secretária. Esse fato foi sempre encoberto por uma névoa cheia de suspeitas. O velho senador Kennedy vê, em Kerry, a oportunidade das idéias de seus irmãos assassinados ressurgirem na figura desse que, sem dúvida, poderia ser um Kennedy.

Essa semelhança com o velho clã dos Kennedy chega até à sua fama de mulherengo, o que, no entanto, poderá prejudicar sua eleição diante da falsa moral norte-americana. Durante as primárias surgiu o escândalo, bem ao estilo puritano, que teria tido uma amante e tudo aquilo que adoram os jornais marrons e seus ávidos leitores. Uma bobageira em torno de um namoro que teve, quando estava divorciado, e ainda não havia se casado pela segunda vez.

Sua política externa, tudo indica, tende a ser melhor para o mundo, pois teria sofisticação e tenderia a negociar os conflitos internacionais de maneira mais branda do que o atual governo. Para o Brasil, no entanto, a política externa dos democratas nunca foi lá muito boa. Caso se eleja, Kerry deverá exigir mais dos governos como o do Brasil, por exemplo: no que diz respeito ao meio ambiente, podendo, inclusive, negociar contra partidas neste campo para o aumento das nossas exportações. Vão jogar mais duro ainda nas negociações sobre a ALCA. Os democratas são tradicionalmente mais protecionistas.

Neste momento, de acordo com recentes pesquisas, o novo candidato bateria o Presidente Bush. Muita água ainda vai passar embaixo da ponte até que se defina, de fato, a tendência do eleitorado. Dados econômicos e possíveis sucessos internacionais – como na guerra contra o terrorismo – poderão reverter o quadro atual e dar a vitória a Bush. Não devemos menosprezar o homem que tem, sob suas ordens, a maior máquina já vista pela humanidade e levantou, para sua campanha, muito dinheiro, mais de cem milhões de dólares.

Jonh Forbes Kerry, JFK, e os democratas jogam suas fichas nesta milionária eleição que poderá ser uma das mais importantes dos Estados Unidos em todos os tempos. Acreditam, que Jorge Bush poderá repetir a história de seu pai, derrotado por Clinton, quando Presidente. Este aparente otimismo reflete-se no grito de guerra proferido por Kerry depois das primárias: “estamos chegando, vocês estão saindo, e cuidado com a porta ao partirem”. Algo assim como o nosso brasileiríssimo “o último que sair apague a luz”.

© Copyright 2005-2017, Carlos Zarur. Direitos autorais reservados.