Engajamento sem Ética

Carlos Zarur . 09 de Agosto, 2004

O engajamento da imprensa americana e inglesa aos seus exércitos, na invasão do Iraque, é um exemplo de desrespeito à ética e à credibilidade.

Jornalistas em vistosos uniformes marchando com seus batalhões rumo à guerra santa de Bush, transmitem uma informação filtrada e grosseiramente tendenciosa.

Mostram de um lado o “mocinho” e, do outro, o “bandido” no mais autêntico estilo dos filmes “hollywoodianos” em que os “cowboys” matavam pencas de índios “pardos e ferozes”.

Para entender o que quero dizer, aconselho uma esticada até a vídeo locadora mais próxima. Procurem o filme “TROPAS ESTRELARES” - aquele em que a Federação intergaláctica ataca os maldosos aracnídeos matando e torturando. O filme poderia ser uma caricatura perfeita da atual guerra. Nas cenas insólitas, repórteres participam ao vivo de uma imensa carnificina de humanos e insetos.

O mais espantoso é que não estamos falando do colunista do jornal da esquina que salpica suas notas de tinta marrom. Falamos da imprensa do país mais forte e desenvolvido do mundo. Da imprensa que arrastou o Presidente Nixon a renuncia depois do escândalo de Watergate. Falamos de jornalistas que marcaram época na busca da verdade e do inconformismo, arriscando tudo por um bom furo. Essa é a imprensa dos Estados Unidos que aprendemos a respeitar, submersa pela onda de patriotismo fanático de parte de seu povo.

Patética a cena do jornalista veterano Peter Arnett, aquele da primeira guerra do Golfo, que, por ter dado uma notícia que não agradou, foi demitido e pediu desculpas ao vivo pela televisão.

A ética no jornalismo é o ponto básico para o alcance da credibilidade. Há que se tomar cuidado quando cobrimos uma área para não nos misturarmos com seus interesses. Tarefa difícil para aqueles que ficam anos cobrindo determinado setor, sabem muito da matéria, mas perdem a visão das delicadas fronteiras inerentes a sua atividade.

O mais interessante é que não pegou.

Todo o esforço de propaganda que usou o disfarce da “imprensa livre” não impressionou ninguém. Ao contrário, ao desrespeitar a ONU e usar da força para impor sua vontade, os Estados Unidos jogaram por terra pelo menos 50 anos de propaganda, colocando em dúvida até a sua sagrada democracia.

Havia negociações importantes em andamento. O desarmamento do Iraque caminhava e, com o tempo, a ONU, através de negociações e pressões poderia conseguir o fim da ditadura de Saddan Hussein. Nenhum tiro seria ouvido, nenhuma criança morreria violentamente e os correspondentes de guerra dos países envolvidos não seriam soldados conquistadores, mas, apenas, transmitiriam a verdade para o mundo.

Fica forte na memória, a lembrança trágica dos colegas que morreram no desempenho de suas atividades, principalmente aqueles, sem uniformes, que estavam no hotel bombardeado por um tanque da coalizão que, apavorado, confundiu suas lentes com miras inimigas.

Este artigo escrevo com emoção, pensando neles e no momento de suas mortes, sem, no entanto, compreender o porquê.

Esperamos agora, no rescaldo dos fatos, que a imprensa dos Estados Unidos, famosa por sua autocrítica, inicie as discussões sobre a Guerra do Iraque e possa medir o seu papel, com a imparcialidade que não teve durante o desenrolar das ações.

O Presidente George Bush perdeu a grande chance, depois do execrável atentado às torres gêmeas, de aproveitar a solidariedade do mundo com os Estados Unidos para buscar uma nova era de paz e prosperidade, aplicando tecnologia e capital de seu rico país, contra a fome e a doença. Esse seria o melhor remédio contra o terrorismo e também a notícia que todos nós gostaríamos de publicar.

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