O Olho Mau

Carlos Zarur . 09 de Agosto, 2004

Estamos vivendo, de fato, a previsão inusitada de George Orwel quando escreveu o clássico 1984. Todos controlados por câmaras de fiscalização frias a serviço da ditadura da imagem.

A cada passo, em qualquer momento. Dentro de casa, nos instantes mais íntimos. Lá estão elas controlando nossas vidas, as coisas simples, as horas mais particulares.

Hoje, já começamos a experimentar essa realidade de maneira intensa. Temos a forte influência da televisão no nosso dia a dia. Interativa, criando comportamentos contra os quais não podemos resistir.

Como exemplo: a violência. A televisão é sua cúmplice. Enquanto denuncia por um lado a onda torpe de agressões que vivemos no nosso dia a dia, por outro lado, fomenta o ódio, levando às nossas casas cenas cruas de sangue, banalizando a vida e a morte.

As tecnologias diminuíram as câmaras e simplificaram as transmissões. Com isso criou-se outro tipo de violência: a que não respeita o direito inalienável da inviolabilidade do homem.

Com a desculpa de denunciar, o repórter invade a casa e, sem avisar, filma e grava. Com o pretexto da segurança, somos filmados, também sem prévio aviso, nas ruas, nos prédios, nos elevadores. Somos artistas, sem saber, de um drama previamente anunciado.

A propaganda usando da avançada psicologia e da tecnologia moderna nos desperta vontades de consumir, sem sabermos porque. De seguirmos em determinada direção, como cegos, sem termos a mínima idéia para onde. Nos vende, prontos, como mais um produto, os políticos que vão nos comandar durante anos, sem nos dar o direito de ter uma tênue discordância.

Dentro desse contexto, é necessário analisar práticas que fogem ao julgamento ético tradicional, pois são como lobos disfarçados em peles de cordeiros. Aparentam uma boa ação, mas, na verdade, corroem a sociedade com falsos dogmas.

Isso me lembra a reação americana ao condenável atentado às torres gêmeas em Nova York. Prenderam sem aviso, interrogando pessoas que não têm respeitado o direito básico de chamar um advogado. Mantêm, como animais, em um campo de concentração, em Cuba, seres humanos que nem o direito a um julgamento tiveram. É a reação a uma ação má com atos no mínimo condenáveis. Em decorrência, invadiram o Iraque, tendo como aliada a informação engajada. Transmitiram o que quiseram ao vivo e nos venderam a “guerra necessária do bem contra o mal”.

Essa maneira de pensar trouxe as câmaras ao nosso cotidiano, “para nos defender”. Trouxe os radares que multam sem que tenhamos o direito de contestar, “para impedir acidentes”. Trouxe às nossas casas filmes de TV violentos, em qualquer horário, acompanhados dos telejornais que denunciam, indignados a violência das ruas. Mostrou-nos, em nossos sofás confortáveis, as cenas cruas da guerra, onde crianças morrem aos nossos pés, na nossa sala de estar.

Houve, como previu Orwel, a invasão da nossa intimidade disfarçada de boas intenções. Logo seremos bilhões de “voyeurs” vendo, doentiamente, a vida e a morte alheia. Controlados para a servidão total da sociedade, através da disfarçada ditadura do bem virtual.

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