Há Cinquenta Anos

Carlos Zarur . 05 de Dezembro, 2005

*atigo publicado no site www.abcpolitiko.com.br

Ao ler a notícia de que mais de 40 milhões de brasileiros não ganham nem para comer voltei ao passado, ainda menino, em uma tarde em Petrópolis. Sentados na varanda de nossa casa, Josué de Castro e meu pai, o geógrafo Jorge Zarur, falavam sobre a miséria e a fome sonhando soluções.

Vivíamos o governo do Presidente Juscelino Kubitschek, lá pelos idos de 1956 e o Brasil era uma nação cheia de esperanças.

Os dois intelectuais tinham planos e projetos para o país, na busca de mais igualdade através de ambiciosos programas de desenvolvimento que retornariam, para as populações mais simples, sob o signo da educação, do saneamento e da saúde, entre outros.

O Brasil era, então, um país agrícola que começava a desenvolver uma indústria nacional de mais peso. Era preciso que as riquezas geradas pela industrialização, iniciada por Getúlio Vargas e capitaneada, naquele momento, pelo dinâmico Presidente Juscelino, fossem equanimente divididas entre a população.

A tarefa, que os dois professores achavam que cabia, inicialmente, à elite intelectual do país, não parecia tão difícil, pois o Brasil era mais justo do que o que vivemos hoje. Apesar de todas as distorções da época, a miséria absoluta e a fome não campeavam livremente como agora. Havia sempre uma cultura de subsistência para amainar o mal. Assim mesmo, Josué de Castro, que já havia escrito sua grande obra, “Geografia da Fome”, dez anos antes, pregava providências duras e urgentes. Não acreditava na esmola fácil, governamental ou privada, como solução, mas no direito ao trabalho que, remunerado dignamente, levasse ao sustento de todos.

Castro pregava a Reforma Agrária ampla e verdadeira. Não a simples distribuição de terra para valorizar os números das estatísticas e distrair os movimentos camponeses. “O tipo de reforma que julgamos imperativo da hora presente não é um simples expediente de desapropriação e redistribuição da terra para atender às aspirações dos sem-terra. Processo simplista que não traz solução real aos problemas da economia agrária. Concebemos a reforma agrária como um processo de revisão das relações jurídicas e econômicas, entre os que detêm a propriedade agrícola e os que trabalham nas atividades rurais.”

Como escrevi em artigo anterior, “Geografia da Fome”, publicado há quase 60 anos, continua tristemente atual, com a diferença do agravamento desse mal crônico em todo o mundo.

Os governantes devem ousar mais. Abrir suas cabeças e acreditar em um país melhor, buscando o desenvolvimento necessário para que nossas crianças, principalmente as carentes, possam ter um futuro mais promissor e nossos velhos o consolo de ver seus netos com trabalho, educação, saúde e segurança. Devemos ter a coragem de quebrar regras econômicas engessadas e procurar soluções inovadoras. Se erros existirem na busca destas soluções, pelo menos saberemos que aconteceram na tentativa de melhorar e quebrar esta pasmaceira irresponsável do nada fazer para que não haja comprometimento.

Hoje, já com meus cabelos brancos, volto àquela tarde em Petrópolis e sinto não ter podido participar daquela conversa onde a esperança de um país melhor brilhava nos olhos daqueles homens. Já faz 50 anos!

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