Fiquem Aí

Carlos Zarur . 13 de Março, 2006

*artigo publicado no jornal Correio Braziliense


Não sei o porquê de todo este alarido em virtude do exército ter invadido algumas favelas do Rio de Janeiro, na busca de armas roubadas de seus vulneráveis quartéis. Em minha opinião, esta ação demorou a acontecer e deveria ter sido mais ousada ainda. Até que enfim o Estado está presente, tendo a rara oportunidade de tirar dos criminosos o governo marginal.

Acho no mínimo estranha a indignação de um bocado de gente que surge com discursos de todos os tipos frente a qualquer ação mais dura contra o tráfico. No entanto, não reclamam da atuação do nosso exército nas favelas do Haiti.

A maioria dos noticiários de TV fica se esgoelando mostrando o custo da ação. Cheguei a ouvir jóias do seguinte tipo: “o que se gastou na operação, até agora, daria para se comprar centenas de fuzis iguais aos que foram roubados”. Ouvi, também, sobre a falta de experiência dos soldados que ocupam os morros, pois são jovens de 18 anos. São, sim, os jovens que sempre lutaram e morreram nas guerras. Políticos matreiros, banqueiros liberais e ávidos empresários, ficam nos gabinetes refrigerados mexendo os cordões em busca da realização de seus interesses.

Nunca ouvi tantas besteiras como as ditas pelos que, sistemáticamente, condenam qualquer ação mais séria de combate ao tráfico. As críticas a serem feitas são bem mais abrangentes. Há perguntas óbvias que devem ser formuladas, como por exemplo: porquê a violência sofrida pela população trabalhadora no seu dia a dia não é combatida? Há vontade política dos governantes para esse combate? O que a justiça e os legisladores vêm fazendo? Quem financia o crime organizado comprando drogas? E, finalmente, há quanto tempo perdura esta história de violência indiscriminada em uma cidade refém do medo e da desesperança?

Muitas outras questões podem ser colocadas sem que hajam respostas enquanto as balas perdidas, por um lado e pelo o outro, continuam matando inocentes. Não precisamos de plebiscito para sabermos o que pensa a população brasileira sobre a investida do exército contra o tráfico. A grande maioria é favorável. No Brasil estamos confundindo o politicamente correto com a promiscuidade com o crime

Aliás, não interessa se estão procurando 10 ou 20 armas e se vão encontrá-las ou não. Essas armas não têm a menor importância no contexto material das coisas, além de um simbolísmo que, espero, possa redundar em melhoria da segurança com o cumprimento, pelo poder público, de sua obrigação de dar ao cidadão um mínimo de tranquilidade.

Dizem ainda os indignados críticos à ação armada, que é um perigo o exército ser corrompido pelo tráfico. Seguindo este ponto de vista, o melhor mesmo seria deixar tudo como está: o terror comendo solto nos morros cariocas e nos ricos bairros de baixo. O exército sendo atacado e roubado em seu arsenal e a população enjaulada dentro de suas casas.

O risco de corrupção existe e está presente no nosso dia a dia em todas as esferas. Mas, não é por isso que vamos simplesmente impedir o combate ao crime organizado. Seria o fim, termos que manter nossas forças armadas, de maneira geral, em seus quartéis, enquanto o crime campeia, porque existe a possibilidade destas forças serem corrompidas.

Fica evidente, também, que a violência no Brasil está diretamente relacionada com graves problemas sociais: a fome, a falta de saúde e principalmente a falta de chances para centenas de jovens poderem estudar e trabalhar, na busca de uma vida melhor. Nem por isso, porém, a sociedade deve parar de lutar, de maneira imediata, contra o crime instalado.

O exército não só fez bem em subir os morros como deve ficar por lá. Construir quartéis, montar hospitais de campanha, monitorar atividades esportivas e, finalmente, mesmo que tardiamente, colocar o Estado, nem que seja vestido de verde, em nossos bairros mais pobres, garantindo a vida da grande maioria trabalhadora e honesta daquelas populações.

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