Insensatez

Carlos Zarur . 25 de Abril, 2006

George Bush e Mahmoud Ahmadinejad jogam o arriscado xadrez da insensatez, ao ameaçarem uma guerra que poderá ser nuclear.

O Presidente dos Estados Unidos quer despejar, nas usinas iranianas capazes de produzir urânio enriquecido, bombas atômicas B61-11, com “menor” teor de destruição. Do outro lado, Teerã disporia de ogivas nucleares em mísseis balísticos com alcance de 10 mil quilômetros. Tais mísseis, que teriam sido comprados da Ucrânia, após o fim da União Soviética, poderiam fazer grande estrago em países ocidentais, inclusive na Inglaterra.

Isto pode explicar o cuidado que o Primeiro Ministro Tony Blair está tomando diante do embate iminente. Ao contrário de suas fanfarronices na invasão do Iraque, o Primeiro Ministro Inglês, apesar de jurar lealdade aos americanos, e, em tese, apoiar uma ação intervencionista, mostra-se recalcitrante pregando uma solução negociada.

Podemos acreditar que o Irã vai cobrar, no caso de ser invadido, uma quantidade de vidas de soldados norte-americanos e civis muito maior do que as mortes já registradas no Iraque, caso possa, de fato, atingir de maneira direta países aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio. Neste caso, o Irã vai transformar aquela região, definitivamente, em um barril de pólvora. Além dos mísseis de longo alcance, que teria comprado do lixo da cortina de ferro, Teerã anunciou, em 2005, testes bem sucedidos com seus foguetes balísticos Shahab-3, cujo alcance é de 2 mil quilômetros. Isso quer dizer que poderiam alcançar a Europa, Israel e bases americanas no Golfo.

Israel, como primeiro alvo, e Inglaterra, logo em seguida, seriam os países mais atingidos caso, de fato, o Irã possua armas atômicas de médio e longo alcance. Há, porém, fortes possibilidades dos iranianos estarem blefando no caso das ogivas nucleares. A questão é a seguinte: vale a pena pagar para ver?

Caso esses dados se confirmem, desde a guerra fria nunca estivemos tão perto de uma refrega nuclear.

As negociações são frenéticas no âmbito do Conselho de Segurança da ONU. Rússia e China, que têm fortes interesses comerciais com o Irã, ameaçam vetar qualquer sanção ao país, enquanto a Alemanha, a França (e mesmo a Inglaterra) pregam a continuidade das conversações condenando o uso da força. Seriam o que chamamos popularmente de “a turma do deixa disso”.

Nesta desafinada toada começamos, nós, pobres mortais, a sofrer diretamente com a insanidade alheia. Existe a possibilidade, caso as coisas esquentem mesmo, de haver um forte aumento no preço dos combustíveis, podendo chegar até ao racionamento, mesmo que tenhamos a tão propalada auto-suficiência. O preço do barril de petróleo bate recordes todos os dias e já ultrapassa os 70 dólares, numa escalada sem precedentes. O Irã, que é o quarto maior produtor do mundo, poderá, no caso de uma guerra, fechar a rota de petroleiros no Golfo, apesar da maioria de suas armas ser obsoleta.

Os aiatolás, mesmo sem abdicar de suas gabolices guerreiras, estão conversando com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e negam ter ambições armamentistas. Têm se comprometido a produzir urânio enriquecido apenas para uso como combustível nuclear na geração de energia.

Vamos esperar que a insensatez não perdure e que o preço para vencer o jôgo de xadrez não seja a destruição do tabuleiro.

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