O Inimigo Somos Nós

Carlos Zarur . 03 de Maio, 2006

A América Latina está se despedaçando, em virtude da política externa dos países “bolivaristas” (Cuba, Venezuela e Bolívia), que vêm rompendo, com impetuosidade, blocos e acordos.

A agressividade da invasão, pelo exército boliviano, das refinarias da Petrobras, empresa do governo brasileiro, com quebra de contratos e tentando uma grosseira chantagem, mostra que não há nenhuma intenção por parte deles de integrar o continente. Colocam frente aos nossos olhos o óbvio: o inimigo somos nós.

Para eles, o que se deve combater é o Brasil “imperialista”. Paralelamente, o coronel Hugo Chavez, promete apoio à agressão boliviana garantindo que, caso o Brasil retire seus técnicos das refinarias invadidas, a Venezuela enviará pessoal treinado para substituir os brasileiros.

Não há razões para termos este tratamento. O contrato do Brasil com a Bolívia para a compra de gás, sempre foi benéfico para o nosso vizinho. Investimos maciçamente, dobrando sua produção de gás. Construímos o gasoduto e pagamos preço justo pelo produto, mesmo que não estejamos consumindo, e oferecemos de lambuja o mais importante mercado da América Latina: São Paulo.

O que tem faltado na nossa diplomacia para a América Latina é mais firmeza e autoridade, condizentes com o nosso tamanho e poder. Os norte-americanos vêm adotando uma viva política de ilhar o Brasil no caso da Alca. Assinam todos os dias acordos bilaterais de livre comércio com países latinos. Do outro lado, o coronel Chavez, com seu assecla boliviano, ataca até com intromissões descabidas em nossa política interna. A Argentina, igualmente, implode o Mercosul, defendendo seus interesses unilateralmente, enquanto o Uruguai ameaça sair do bloco, preparando a assinatura de acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

Como resposta às fanfarronices de Evo Morales, caso fôssemos os Estados Unidos, já estaríamos com nossos fuzileiros navais garantindo o fornecimento de gás para o país. Seguiríamos a cartilha de Condoleeza Rice, Secretária de Estado norte-americana, que em seu famoso artigo “Power Matters” (O Poder Conta), escrito há cerca de cinco anos, prega que nas relações internacionais o exercício do poder, para países que o têm, é legitimo mesmo quando motivado estritamente pelo interesse próprio.

Ainda bem que não agimos assim. Temos em nossa história uma vasta tradição diplomática, mantida orgulhosamente pelo Itamaraty, onde o diálogo e a paciência norteiam nossos passos. As negociações para a demarcação de nossas fronteiras são um belo exemplo dos primórdios dessa prática. Isto não deve significar, porém, que vamos contrariar nossos interesses internos cedendo à chantagem, como no caso em questão.

É o momento de darmos uma resposta exemplar, retaliando interesses bolivianos no Brasil e, ao mesmo tempo, negociando uma solução diplomática que não interfira no fornecimento de gás para nossa indústria. Ceder à chantagem seria desmoralizante para a Nação. O nacionalismo deles não deve ser mais importante do que o nosso próprio nacionalismo.

Enquanto negocia, o Brasil deve, tirando lição dos últimos acontecimentos, criar um plano de emergência para a prospecção e distribuição de gás em nosso próprio território, enterrando planos como o gasoduto que iria da Venezuela até a Argentina para não ficar ainda mais frágil em um setor estratégico como o da energia. Já chegamos à auto-suficiência na prospecção de petróleo devemos, agora, buscar a auto-suficiência no que concerne ao gás.

Devemos, ainda, de uma vez por todas, aprender que o sonho da integração latino-americana passa pela compreensão de que nosso poder, na direção desta integração, vale pelo respeito que nossos vizinhos tenham por nós.

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