A Imagem

Carlos Zarur . 29 de Agosto, 2006

Morreu Joe Rosenthal, conhecido como o fotógrafo da vitória por ter feito a clássica foto dos soldados norte-americanos fincando, em 1945, a bandeira dos Estados Unidos no alto do monte Suribachi, na ilha de Iwo Jima, Japão.

Nenhuma outra imagem foi tão emblemática a ponto de inspirar o monumento aos marines erguido em 1954, em Washington. Depois dela, os Estados Unidos só se meteram em guerras inglórias, como a do Vietnã, de onde saíram escorraçados e cuja foto símbolo passou a ser a da menina nua, correndo com o corpo queimando pelo napalm.

O que Rosenthal fotografaria hoje, se estivesse acompanhando as tropas americanas no Iraque, a invasão mais recente que seu país desfechou. Retrataria carnificinas de civis, ou, talvez, torturas perpetradas pelos soldados norte-americanos dentro das prisões.

A constatação é a de que os Estados Unidos mudaram muito desde a Segunda Guerra Mundial, quando eram os “mocinhos” enfrentando a real ameaça do fascismo, junto a seus aliados, os ingleses, franceses e outros.

Seus líderes mudaram para pior, pois não podemos, nem de perto, comparar, por exemplo, um Franklin Delano Roosevelt, que governou os Estados Unidos por quatro mandatos – morreu antes de terminar o quarto - e estava no poder quando Rosenthal fez a imagem da vitória, com um George W. Bush.

Roosevelt lançou seu país na Segunda Guerra na busca de uma vitória, que, além de sua importância econômica, colocaria os Estados Unidos na liderança da política mundial como paladinos da democracia e do progresso. Bush, por outro lado, invadiu o Iraque, contra os preceitos das Nações Unidas, pregando uma pseudo luta ao terrorismo depois dos execráveis atentados às torres gêmeas. Não há vitória. O Presidente está até o pescoço atolado em uma guerra sem saída, onde milhares de jovens soldados americanos já morreram, além de um número incontável de civis iraquianos, na maioria crianças, que não tiveram o direito de viver.

Não discuto aqui o que significou o sangrento ditador Saddam Hussein que, no entanto, não devemos esquecer, foi alçado ao poder pelos EUA e tratado como aliado enquanto foi útil. Chamo atenção para a guerra desnecessária que derrubou o ditador vilão para impingir a um povo todo o tipo de humilhações e mais mortes ainda, do que as que ocorriam no tempo negro da ditadura de Saddam. O pior de tudo, é que não há nenhuma luz no final desse túnel.

Joe Rosenthal quando tirou a foto histórica, conhecia também outros líderes aliados dos Estados Unidos. A Inglaterra, por exemplo, era comandada pelo primeiro-ministro Winston Churchill, que conseguiu unir sua nação em torno de uma resistência heróica. Incomparável ao recalcitrante Tony Blair, que, com Bush, invadiu o Iraque apoiado em falsas premissas.

O ideal seria não existirem mais fotos guerreiras. Nem as heróicas como a de Rosenthal, muito menos os flashes que testemunharam, por exemplo, os campos de concentração fascistas, a menina vietnamita ferida pelo napalm, as crianças libanesas mortas pelas bombas de Israel. Ou mesmo, as mais próximas da nossa realidade, que retratam as guerras do PCC, em São Paulo, ou do Comando Vermelho, no Rio.

A utopia é que um dia não existam mais imagens para esse tipo de fotografia.

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