Serras de Minas

Carlos Zarur . 27 de Setembro, 2006

Olho para o infinito pedregoso das serras de Minas,

onde colméias abstratas destilam mel.

Ouço o eco do movimento frenético das velhas e

sábias mãos que tecem suas trilhas estreitas.

Sinto o cheiro dos carmins que povoam as margens

dos córregos de águas frias.

Na alma das serras mineiras ainda ressoam o seco estalar

dos cascos de seus inomináveis cavalos.

Animais de ancas magras que Cecília Meireles cantou,

com pelos áridos e olhos servis.

Os caminhos sinuosos naquelas montanhas têm curvas

delicadas. São mulheres eternas e sábias.

Na beira dessas alamedas imemoriais vivem sombras carinhosas, filhas

das velhas árvores.

Meigas, acolhem os homens cansados e calorentos. Despertam

sonhos escondidos no fundo dos corpos magros.


Ah! As pedregosas e infinitas serras de Minas, onde

teias translúcidas abrigam aranhas contemplativas.

Acordam com o canto longínquo de seus pássaros e a luz

que vem do céu absolutamente azul.

Suas chuvas são feitas de água divina, benta nas

igrejas com torres altas povoadas de fantasmas.

O povo dessas montanhas é desconfiado como seus bichos e

possui o raro dom da eternidade.

Cheira ao perfume da terra, numa mistura ideal com a fumaça dos

fogões que consomem a lenha santa das florestas.

Suas moças têm pernas grossas e ancas procriativas. Envelhecem

como as sábias corujas que enfeitiçam as noites escuras.

No fundo de suas almas habita uma intensa saudade, uma dor

inclemente como os relâmpagos - filhos das tempestades.

A gente que vive por aqueles outeiros dourados faz parte

de uma rara geometria de luares infindáveis.


Nas pedregosas serras de Minas, moram, em tocas

insaciáveis, animais irreais e secretos.

São sacis, boitatás, cururus e mulas-sem-cabeça. Criaturas que,

além da floresta, vivem nas conversas das noites escuras.

Há, entre seus segredos, ervas curativas – milagrosas - que levam

qualquer mal na fumaça dos incensos.

Ladainhas ecoam pelas suas alturas, desfiando rosários

brancos, infindáveis e eternos.

Orações, cristalinas como riachos, sobem ao céu estrelado, no

ritmo modorrento das bocas enrugadas.

Consolam as feridas negras de minério, que consomem dolorosamente

almas impuras e tortas.

Distante, a atávica memória de outras vidas corre pelos vales secos,

com maciços pés descalços e andarilhos.

As serras mineiras são assim, feitas de capim meloso, de sombras e fé,

do amor quieto nas camas simples trançadas de couro.


Saudades das serras infinitas e pedregosas de Minas!

© Copyright 2005-2022, Carlos Zarur. Direitos autorais reservados.