Mártir

Carlos Zarur . 08 de Janeiro, 2007

*artigo publicado no site www.abcpolitiko.com.br


Inacreditável até aonde chegou o governo Bush, ao tentar lavar as mãos da responsabilidade pela bárbara execução de Sadan Hussein. O enforcamento foi coordenado pelos Estados Unidos que entregaram o ex-ditador para seus algozes.

Bush seria melhor de que Saddan? Não creio, são muito parecidos. A diferença está no poder de cada um.

Agora, transformado em mártir, Saddan ficará para sempre assombrando a consciência dos americanos, que, juntamente com o resto do mundo, estupefatos, viram o tratamento desastroso que foi dado a um homem no momento de sua morte.

Saddan superou Bush, pois além de sanguinário como seu executor é, a partir de agora, herói de seu povo e vítima aos olhos do mundo. O governo Bush conseguiu a proeza de transformar o vilão carniceiro em herói martirizado.

O ponto não está na captura de quem filmou o impressionante enforcamento, pura cena de Boris Karloff, mas nas imagens que o filme mostrou – uma brutal execução política. Queiramos ou não, a verdade é que Saddan foi derrotado em uma guerra desigual, baseada em falsas premissas propaladas pelos países invasores, antes aliados do ditador. Não devemos nos esquecer que ele foi alçado ao poder com o apoio dos Estados Unidos, seus dedicados parceiros até que os ventos mudassem de rumo na região.

O Iraque vive uma sangrenta guerra civil que só vai recrudescer daqui para frente. As mortes de civis aumentaram muito nos últimos meses do ano passado e, segundo o próprio governo iraquiano, já somam, desde o início do conflito, cerca de 150 mil. Cifra que, de acordo com entidades internacionais de direitos humanos, é subestimada. As baixas de soldados norte-americanos já superaram os mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001. Passam de 3 mil, enquanto nas torres gêmeas morreram 2.973 pessoas.

Resta saber quem responderá por essas perdas.

Agora o governo Bush tenta sair do atoleiro e, para isto, ao invés de engatar uma ré, erra mais uma vez. Vai enviar mais tropas para tentar apagar o fogo do caldeirão que ferve sem controle. Tudo indica que jogou seu país em uma aventura sem fim.

Enquanto isso, o novo Congresso, dominado pelos democratas, não vai dar trela. Ficará de olho na política da Casa Branca para o Iraque. Há duas questões principais que serão analisadas pelos opositores: os gastos com a guerra que, segundo estimativas, custa R$ 17 bilhões por mês e o custo político. O democrata Joseph Biden, por exemplo, que presidirá a Comissão de Relações Exteriores do Senado, já anunciou a convocação de, pelo menos, uma dezena de audiências sobre os erros cometidos na guerra do Iraque, com o depoimento, inclusive, da Secretária de Estado, Condoleezza Rice. A Comissão das Forças Armadas, por sua vez, já anunciou a intenção de chamar para depor o novo Secretário da Defesa, Robert Gates.

O Presidente George Bush não viverá dias fáceis nos dois anos que restam para o fim de seu mandato. Terá que mostrar muito mais e sinalizar com alguma saída para a desastrosa invasão que agora, ainda por cima, tem um mártir balançando na forca.

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