Bush: A Visita Tardia

Carlos Zarur . 07 de Março, 2007

Em seu giro pela América Latina, que engloba o Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, tenta preencher um importante vácuo da sua política externa, que deixou de lado esta parte do mundo em prol de outros interesses, como a guerra do Iraque e a aproximação com a China, por exemplo.

A inusitada visita parece ser sinal de que a movimentação de Hugo Chavez começa a mexer com os brios norte-americanos, que, até então, mantinham uma política de ignorar o Presidente venezuelano. Prova disto está na generosa oferta de recursos para projetos sociais, em vários países, feita pelo presidente Bush.

Tudo indica, no entanto, que a visita ilustre está sendo feita tarde demais, pois há uma forte pré-disposição antiamericana, especialmente anti-Bush, como raramente foi vista entre as populações latino-americanas.

Vários fatores influenciaram esta generalizada opinião negativa, entre eles, o principal talvez tenha sido a guerra do Iraque. A invasão baseada em falsas premissas e contrária à opinião pública mundial - com exceção do povo americano e dos ingleses, cegos pela maciça propaganda – fez essa guerra parecer, ao mundo, uma agressão inusitada, uma reação histérica e impensada aos execráveis atentados que colocaram abaixo as torres gêmeas, em Nova York, e mataram centenas de norte-americanos. A guerra, que foi vendida como um “passeio”, já matou milhares de jovens soldados aliados, tendo se transformado em um verdadeiro genocídio para a população iraquiana. Além do mais, está, até hoje, incontrolável e, pior ainda, os americanos não sabem como sair daquele verdadeiro inferno em que se enredaram.

Esquecendo de maneira quase amadora o lado político do relacionamento com a América Latina, os Estados Unidos foram, porém, bem profissionais no campo econômico. Sentindo que seria quase impossível fechar um acordo em torno da ALCA, buscaram concertos setoriais e tiveram sucesso com o NAFTA, que inclui Canadá e México e com o CAFTA, englobando América Central e República Dominicana. Além de acordos bilaterais com o Chile, Peru, Colômbia e, em final de negociações, com o Uruguai – o que atingirá em cheio o Mercosul.

O vazio está na área política. Pragmáticos, os norte-americanos acharam que, com os acordos econômicos diretos minimizariam qualquer reação de monta que pudesse minar seus interesses na América Latina. Erraram redondamente nesta avaliação e, agora, enfrentam o bloco, liderado por Chavez, que começa a incomodar e conta, além da Venezuela, com Cuba, Bolívia e Argentina.

O giro de Bush pela esquecida América Latina é uma tentativa tardia de retomar o prestígio de seu país e enfrentar a reação, cada vez mais real, às políticas de interesse direto dos Estados Unidos na região. O Presidente, que gosta de guerra, tem, agora, que afagar muito para tentar recuperar o tempo que perdeu por aqui.

© Copyright 2005-2018, Carlos Zarur. Direitos autorais reservados.