O Pingüim e a Barbie

Carlos Zarur . 16 de Dezembro, 2007

Ao receber a faixa de Presidente da Argentina das mãos de seu marido, o ex-presidente Nestor Kirchner, chamado pelo povo de “el pinguino”, Cristina Elisabet Fernández de Kirchner tornou-se a primeira mulher na história, eleita Chefe de Estado, a tomar posse naquele país.

Vaidosa, quase uma barbie, Cristina terá muito trabalho, pois deverá tomar decisões difíceis como autorizar a remarcação de preços tabelados por seu marido, que criam a falsa sensação de estabilidade econômica. Apesar de o instituto oficial anunciar que a inflação encontra-se no patamar de 8% ao mês, especula-se que este índice é manipulado e que, na verdade, já estaria alcançando os 20%.

O nosso vizinho pena, também, com o estancamento de seu desenvolvimento em virtude da falta de energia elétrica, apesar do socorro prestado pelo Brasil que vende energia para as indústrias argentinas. Houve uma total imprevidência no não desenvolvimento de um projeto energético que pudesse acompanhar o crescimento do país. As soluções, tomadas agora, de um resgate energético são confusas e só surtirão efeito daqui a 7 anos ou mais, caso, de fato, sejam postas em prática.

Além da economia, outro problema grave é a corrupção, considerada endêmica na Argentina. A futura presidente precisa ainda ganhar o apoio da classe média, parcela da população menos beneficiada com a recuperação econômica promovida por seu marido. Cristina também terá de trabalhar para manter o equilíbrio entre a aliança estratégica com a Venezuela e a melhora na relação com os Estados Unidos, como prometeu.

Essa relação com os americanos, porém, já começa mal, em virtude da afirmação da justiça norte-americana que vincula a detenção do empresário venezuelano Guido Alejandro Antonini Wilson, cuja mala com 790 mil dólares foi retida pela política federal Argentina, ao financiamento da campanha eleitoral de Cristina Kirchner. O dinheiro teria sido enviado pelo Coronel Chaves, presidente da Venezuela. Cristina reagiu imediatamente. “Alguns países mais do que amigos querem países empregados. É sua maneira de operar na política regional, mas não terão resposta” – disse, visivelmente irritada.

No âmbito da América Latina, a nova presidente da Argentina parece compreender melhor do que seu marido a importância de um estreitamento do relacionamento político com o Brasil. Nestor Kirchner não engolia a popularidade do Presidente Lula em seu próprio país e, várias vezes, demonstrou certa irritação com a inevitável liderança brasileira no continente. Cristina visitou Lula quando candidata e escolheu o Brasil para sua primeira visita ao exterior como Chefe de Estado.

Politicamente, os peronistas nunca estiveram tão fortes como agora e, ao elegerem uma mulher, retornam ao passado, como adoram os argentinos. Isto começou com a verdadeira veneração que o povo tinha por Evita, mulher do General Perón, ditador e fundador do peronismo. Evita morreu no auge do poder de seu marido, em 1952, vitimada por enfermidade fulminante. Depois, quando voltou do exílio, o velho caudilho foi eleito, em 1973, presidente, morrendo no poder. Assumiu então a vice-presidente, sua mulher Isabelita, derrubada pouco tempo depois pelo golpe militar que matou mais de 30 mil pessoas nos anos de chumbo em que os generais ocuparam a Casa Rosada.

Por isto, não devemos estranhar esta sucessão familiar no país vizinho, este passar de poder de marido para mulher. Para nós esta não é uma estória muito comum. É como colocar o Cartola compondo um Tango.

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