Querido Lider

Carlos Zarur . 01 de Junho, 2009

O ditador norte coreano Kim Jong-il é apelidado pelo povo do país, que controla absoluto, por “querido líder”. Ao contrário do que aparenta, ou do que nós ocidentais interpretamos, é inteligente e perspicaz. Transformou um país pobre, e sem oportunidades, em um destaque ameaçador.

Jong Il é filho do stalinista Kim Il-sung que fundou o atual regime e governou a Coréia do Norte, com mão de ferro, de 1948 até sua morte, em 1994. Mesmo hoje, 15 anos depois de sua morte, é referenciado como o “grande líder”. Segundo a constituição do país, Il-sung é oficialmente o “presidente eterno da Coréia do Norte”.

Para entendermos bem o embrólio que envolve as duas coréias, do sul e do norte, devemos voltar ao ano de 1945 que marca a expulsão dos japonêses da península coreana e sua invasão por tropas dos Estados Unidos e da União Soviética. Os soviéticos estabeleceram-se ao norte e, os estadunidenses, ao sul. Em 25 de junho de 1950, a Coréia do Norte invadiu a Coréia do Sul e deu início a uma guerra, envolvendo China e União Soviética de um lado, e os EUA e seus aliados do outro. Em 27 de julho de 1953, foi assinado um armistício entre as duas partes, criando uma zona desmilitarizada entre os dois países em vigor até os dias de hoje.

A atual crise coreana começou mesmo quando, em 2002, Bush incluiu a Coréia do Norte no seu “eixo do mal”. Isto fez com que os asiáticos retirassem seu apoio ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), do qual eram signatários, e gerou temores de uma guerra atômica. No mesmo ano, Pyongyang reativou o seu reator nuclear, em Yongbyon, e o Governo expulsou do país dois monitores nucleares das Nações Unidas.

A situação geopolítica da Coréia do Norte é outro importante complicador desta crise, pois o país tem fronteiras com China, Rússia, Coréia do Sul e está cara a cara com o Japão. Coréia do Sul e Japão, fiéis aliados dos americanos.

Desta vez porém, até a China, velha amiga de Jong-il, condenou o teste subterrâneo de uma bomba nuclear norte-coreana que pode ter a potência da bomba que os Estados Unidos despejaram sobre Hiroshima e Nagasaki, na segunda guerra mundial - entre 10 e 20 quilotons. A explosão gerou um tremor de 4,5 graus na escala Richter sentido até na cidade chinesa de Uanji, situada na fronteira com a Coréia do Norte.

Vários foguetes foram disparados também pelo governo norte-coreano, uma demonstração de que já tem a bomba e seus transportadores com a capacidade de alcançarem, com certeza, o Japão e, talvez, até alvos mais distantes.

Este é um teste duro para o jovem governo de Barack Obama. Uma oportunidade para o mundo observar como reagirá o Presidente dos Estados Unidos, recentemente eleito, e sua Secretária de Estado Hillary Clinton. A situação é quente e não há a menor possibilidade de ficar em cima do muro. A saída poderá estar em um árduo trabalho diplomático que procure o diálogo com Pyongyang, buscando um recuo de sua política beligerante em troca de maior participação do país, tanto política quanto econômica, na economia ocidental. O isolamento, capitaneado por sanções econômicas, já se mostrou ineficaz, aguçando, ainda mais, a agressividade da Coréia do Norte.

Já no Brasil, que se preparava para abrir a primeira embaixada de um país sul-americano em território norte-coreano, a reação foi rápida. Foi suspenso o envio do Embaixador, Arnaldo Carrilho, e o Itamaraty fez uma veemente condenação do teste nuclear, ameaçando rever as perspectivas de estreitamento das relações.

As peças estão no tabuleiro. Depende das próximas movimentações no sofisticado jogo internacional a busca da paz ou, na pior hipótese, da guerra que só traz prejuízos e sofrimentos.

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