Good Night

Carlos Zarur . 03 de Agosto, 2010

Ele perambulava pelo setor Sudoeste, aqui em Brasília, e dormia quase sempre na hípica, na entrada do parque da cidade. Good Night era um mendigo diferente, conhecido por todos do bairro que freqüentava, já há muitos anos, sempre com um livro rasgado debaixo do braço e a garrafa na mão.

Outro dia, recebi a notícia que havia morrido ali mesmo, na rua que escolheu como lar. Seu companheiro inseparável, um velho e fiel cão pulguento, ficou abandonado, como todos nós que moramos no Sudoeste e estávamos acostumados com suas tiradas.

Quando estava no auge do seu estado etílico, gostava de falar inglês com seus vizinhos de bairro.

Uma manhã, com meus cabelos e bigodes brancos, vestido com um terno escuro, lá ia eu buscar meu carro que lavava no estacionamento do comércio da super quadra 302, quando, na faixa de pedestres, esbarrei com o nosso personagem chapliniano. Ele parou, olhou-me fixamente com seus olhos ejetados e disse com voz empostada, fazendo uma pequena vênia: – ora, ora quem eu vejo! Se não o Barão do Rio Branco! Saímos sorrindo, ele para o seu lado e eu para o meu.

Good Night tinha refinado gosto e liderava os demais sem-teto que perambulam pelo setor Sudoeste. Uma das poucas vezes em que interagimos, foi quando eu ia feliz, guiando meu velho Karmann Ghia pelo bairro e fui obrigado a parar na faixa de pedestres, pois o nosso amigo balançava o braço, educadamente, querendo atravessar.

Estava acompanhado por um dos seus companheiros de rua e garrafa. Circundou o carro na maior alegria, ensinando como era belo e raro. Sabia apreciar as coisas boas da vida!

A última vez que o vi, estava completamente bêbado dormindo ao relento – sujo e fraco. Um pouco antes, andava pela rua gesticulando e discutindo com alguém imaginário que freqüentava sua mente já corroída pelo álcool. A decadência era visível e sabíamos que, em breve, nos deixaria para finalmente descansar de suas mazelas e de seu vício.

Sempre tentei imaginar uma explicação para o Good Night. Talvez tivesse abandonado tudo por causa de um amor não correspondido ou por ter perdido, de alguma maneira, a família que amava. Tentava encontrar uma história romântica para o velho morador de rua, mas nunca consegui saber nada sobre ele, pois talvez, na verdade, não haja nada para se saber. Era só mais uma pessoa excluída, pelo menos da vida burguesa, avarenta e consumista, que vivemos.

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