A Prisão do Mocinho

Carlos Zarur . 18 de Dezembro, 2010

* artigo publicado no Jornal Correio Braziliense.

Nesta história toda do site WikiLeaks o mocinho foi para a prisão enquanto os bandidos, muitos flagrados em cavernosas elucubrações, estão gozando seus cargos e suas benesses.

O mundo está se transformando mesmo. A prisão de Julian Assange, se comparado ao escândalo de Watergate, prova as diferenças.

No caso de Watergate, dois jovens repórteres do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bemstein, investigaram a invasão do escritório de campanha dos democratas chegando ao poderoso Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, como principal culpado. Nixon renunciou em 1974.

A justiça americana, apesar das pressões e de todos os embaraços, garantiu a liberdade das informações que viriam a derrubar o homem mais poderoso do mundo.

Nixon caiu atingido pelas teclas das máquinas de escrever de dois jovens repórteres apoiados pela coragem da dona do Jornal, Katharine Graham. Hoje, outro jovem, Julian Assange, que publicou segredos de Estado, pois teve também uma fonte de governo que os liberou, foi preso em Londres sob a ridícula acusação de ter cometido crimes sexuais na Suécia – logo na Suécia!

O crime em questão é ter transado, sem camisinha, com duas mulheres suecas. Mesmo que isto torne alguém criminoso acho que vai ser meio difícil provar.

Assange foi solto, provisoriamente, depois que seus advogados apelaram para a corte inglesa. Assim mesmo teve que pagar, como um marginal qualquer, uma polpuda quantia para que o tribunal o liberasse. Um deboche à liberdade de expressão.

Esta reação, principalmente dos Estados Unidos, mostra que aquele país vive não só uma decadência financeira como um retrocesso de seus ideais democráticos, tão admirados pelo mundo livre. Desnuda, sobretudo, a fraqueza de um país que não consegue guardar seus segredos e precisa cassar um jovem internauta para impedir a divulgação de fatos que, de alguma maneira, chegaram ao seu poder. Isto é, ele não roubou as informações: elas lhes foram passadas por um informante.

Muito parecido com o homem que vazou as notícias que derrubaram Nixon, conhecido na época como “Garganta Profunda”, que só teve sua identidade revelada, por ele mesmo, um pouco antes de morrer em maio de 2005. O informante era nem mais nem menos do que o ex-vice-presidente do FBI, W. Mark Felt.

Pertinente, no caso, a participação da alta comissária para direitos humanos da ONU, Navi Pillay, que classificou a pressão contra empresas ligadas ao site como clara tentativa de censura. Pillay refere-se, apesar de não diretamente, à influência do governo dos EUA.

Muito clara, por outro lado, a bagunça que está instalada nos órgãos de segurança dos Estados Unidos. É inexplicável que um país com o poder de destruir o mundo, com um simples apertar de um botão, não consiga guardar seus segredos. Podemos imaginar o desastre que ocorreria caso os códigos secretos e os meandros dos sistemas nucleares começassem a vazar. Seria o caos completo!

Os órgão de segurança americanos ao invés de perseguirem um site e seu criador, pela revelação de seus segredos, devem aprender com a lição e reforçar seus intricados sistemas olhando para o próprio umbigo. Devem procurar quem vazou e não quem publicou.

É bom que possamos definir o que é, exatamente, o WikiLeaks. Segundo a Wikipédia, a “WikiLeaks é uma organização transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia que publica documentos e fotos, entre outras informações confidenciais”. Os documentos disponíveis no site são, na sua maioria, enviados por indivíduos de empresas ou governos. É difícil imaginarmos que seja possível censurar este poderoso instrumento, pois os denunciantes, em sua maioria, são pessoas que não tem nada a perder.

Ficam os protestos em todo o mundo. A indignação contra a perseguição ao mocinho que publicou informações reveladoras dos porões da diplomacia mundial, sobretudo da nação mais poderosa do mundo, indica que sua decadência não está só no terreno econômico, mas também no âmbito moral e político.


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