Os Ricos Desertos da Líbia

Carlos Zarur . 30 de Agosto, 2011

Depois de décadas de ditadura, a Líbia, que conseguia manter silente o mau humor das centenas de tribos que formam o país, poderá ter um longo caminho a trilhar para conseguir equacionar um novo status quo. A paz interna dependerá agora, principalmente, de como o poder será dividido entre essas tribos.

Será difícil substituir o sistema equacionado por Kadafi, que conservou o poder pela força e a divisão de interesses. Não se sabe, porém, até que ponto o equilíbrio que o Coronel conseguiu sustentar por tantos anos será mantido pelos novos governantes, oriundos da revolta vitoriosa.

Muamar Kadafi chegou ao governo em 1969 antes de completar 30 anos, depois de desferir um golpe contra o corrupto rei Idris. Assumiu levando consigo a esperança do povo líbio e, no início, fez algumas reformas, até acreditar que podia se perpetuar como ditador o que quase conseguiu nos seus mais de quarenta anos de poder. Já preparava seu filho para continuar a dinastia quando eclodiu a revolta que o derrubou e pôs fim aos seus planos.

A história da Líbia é muito conturbada. Foi dominada pelo Império Otomano, mas, a partir de 1911, a Itália venceu o velho império e ocupou o país. Britânicos e Franceses, no entanto, derrotaram, na segunda guerra, os Italianos e os Alemães em sangrentas batalhas no deserto. Até 1951, a Líbia esteve sob mandato anglo-francês, quando se tornou independente. As tropas britânicas só saíram completamente do país em 1966 e se mantiveram ali em troca de polpudos subsídios ocidentais. O petróleo descoberto a rodo, nas suas desérticas terras, a partir de 1958, deu considerável renda ao país que passou a prescindir da ajuda externa.

O imbróglio, no entanto, está no intrincado relacionamento entre as tribos. Para entendermos melhor esta teia podemos citar as principais. A Gaddafi, tribo do ditador deposto, é pequena e guerreira, sendo oriunda dela a maioria dos pilotos da aeronáutica. A maior de todas é a Werfalla, com mais de um milhão de integrantes, que nunca teve um bom relacionamento com Kadafi e entrou de cabeça na revolta. Depois, vem a Misrata, segunda maior tribo, seguida pela Margaha. Há ainda, entre outras, a tribo Taruma, maioria em Trípoli, a Zentan e, finalmente, os Tuaregues, nômades que não aceitam fronteiras e se espalham por vários países.

É difícil saber como será organizado o novo governo em meio a esta torre de babel. Depois de encerradas as últimas resistências, serão necessários complexos acordos tribais para a formação de um governo estável. Caso isto seja possível, uma nova Líbia poderá aflorar: democrática e mais equânime. Entretanto, se não conseguir um concerto duradouro entre esses diversos interesses, alguns com sérias restrições históricas, o país poderá se transformar em um caldeirão beligerante, ou voltar para as mãos de outra ditadura sangrenta.

Se uma guerra fratricida se espalhar após a deposição final do regime, sobrará também para o ocidente, pois o petróleo Líbio tem importância principalmente para a Europa. Continente que já sofre com uma sombria crise econômica que ainda não sabemos aonde vai parar. Neste caso, há a possibilidade de uma nova intervenção ocidental, que colocaria mais gasolina no fogo.

Por outro lado, os fundamentalistas islâmicos, oprimidos pelo governo Kadafi – com sutil aprovação dos países ocidentais – poderão, caso a situação fique muito nebulosa, transformar a Líbia em mais uma república islâmica, ao molde do Irã. Este seria o pior cenário para os Estados Unidos e aliados e o melhor para os Aiatolás.

Apesar de diversos países, que participam ativamente da deposição do Coronel Kadafi, já terem manifestado apoio aos líderes revolucionários, o Brasil espera prudentemente para reconhecer os novos donos do poder. Mostra o Itamaraty o tradicional comportamento de nossa diplomacia de não açodar os acontecimentos, mas, ao contrário, digeri-los para então decidir. Ainda mais diante do imprevisível desfecho da crise. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém!

Ainda há muita água para correr no norte da África e no Oriente Médio. Transformações que vêm no bojo da derrocada de regimes fortes como o do Egito. Parece que a Síria será a bola da vez e que seu sanguinário ditador seguirá o caminho de seus colegas já depostos. É bom que os velhos opressores, que ainda não caíram, ponham as barbas de molho.

Resta esperar para ver aonde vai desembocar tudo isto. Se em regimes democráticos e independentes ou em déspotas que apenas substituirão os que envelheceram.

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