GLENIO BIANCHETTI – O MESTRE DAS CORES

Carlos Zarur . 21 de Fevereiro, 2014

Terça-feira, bem cedo, acordei com um sentimento de que faltava alguma coisa no mundo, uma sensação de que a manhã estava mais chuvosa e triste, a não ser pelo passarinho colorido que reinava no mais alto da árvore que fica bem em frente da varanda do meu quarto.

Havia recebido a notícia de que o pintor Glênio Bianchetti não estava mais entre nós. Havia partido discretamente como sempre viveu. Gentil e educado, sem ver maldade em nada, nosso Glênio nos deixava uma instantânea saudade. Comecei, então, a me lembrar dos momentos felizes que tive o privilégio de viver junto ao querido amigo.

Em 1963, mudei-me, ainda menino, com minha família, para o Bloco K da SQS 305 sul. Havia naquela prumada do prédio uma espécie de união entre todos, especialmente num ponto de encontro: o apartamento 402 - que vivia de portas abertas e onde moravam Glênio e sua querida companheira Ailema. Naquele espaço cheio de quadros e crianças felizes, vivemos momentos mágicos!

No ano seguinte, o Brasil entrava na época negra da ditadura. Glênio, perseguido pelos algozes daqueles tempos, saiu da UnB e foi viver exclusivamente da sua arte. Nós, da “República Livre do Bloco K”, ajudávamos uns aos outros, e apesar dos medos e inseguranças, sobrevivemos à escuridão.

O apartamento dos Bianchettis era um verdadeiro refúgio para mim e outros andarilhos desse mundo! Eu vivia lá, olhando o Glênio pintar; filando cigarros; tomando café gelado (sua especialidade) e conversando longamente com o mestre.

Um dia, ele resolveu usar um quadro grande que havia pintado e, não tinha gostado, para transformá-lo em uma mesa de jogar botões. No ex-quadro apostamos memoráveis campeonatos. Ele jogava bem e, se posso me lembrar, venceu alguns dos torneios disputadíssimos. Participavam: amigos, agregados e seus quatro filhos homens, todos com apelidos carinhosos: Naco, Preto, Pingo e Gordo. As meninas, Ângela e Cuca, ficavam mais com a mãe, recebendo suas sábias lições.

Quando eu corria de carro, resolvi juntamente com o velho amigo Fernando Ramos, disputar os Mil Quilômetros de Brasília de 1969. Recorremos ao Glênio para que ele fizesse o nosso emblema de Equipe. Eu havia descoberto, em uma enciclopédia, o nome de um velho campeão de corridas de motocicletas, o italiano chamado Lazzat. Entusiasmado, o já renomado pintor, abandonou momentaneamente suas telas e desenhou o lindo emblema que encantou a todos. A Equipe Lazzat brilhou, correndo nas ruas de Brasília e exibindo um talismã: o seu emblema.

Glênio gostava de contar uma história sobre esta corrida. Quando ela terminou ele resolveu fazer em seu democrático AP, uma festa para comemorar o nosso sucesso. Dizia que tomou o maior susto, pois sua casa foi invadida por uma população muito esquisita, gente de todo o tipo, desde os nerds da época até aos viciados das ruas. Foi uma festa e tanto e apesar do submundo que frequentava as corridas ter comparecido em massa, nada ocorreu de desabonador. Contava, Glênio, que pela manhã ainda havia alguns participantes da festa dormindo pelos sofás e tapetes.

Depois, os Bianchettis se mudaram para uma chácara, no Lago Norte, onde todos vivem juntos.

Lá, como esquecer seu ateliê, sempre tranquilo e inspirador? Dos encontros de Natal com o presépio vivo, quando Jesus era sempre o filho recém nascido de algum amigo, dos bazares de fim de ano, quando podíamos ver dos seus belos quadros até os artesanatos feitos por vários familiares e amigos, com destaque para as caixinhas da Ailema.

Glênio coloriu nossas vidas com sua imensa sapiência e quadros belíssimos! Ele e Ailema souberam cuidar dos amigos. Souberam amar seus filhos, seus netos e generosamente a todos nós os “agregados”.

Sacudi os pensamentos que iam longe e olhando de volta para a árvore, em frente ao meu quarto, não vi mais o passarinho colorido. Havia partido - o céu estava azul!



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